7º Fórum Mundial da Bicicleta: Recuperando Cidades e Pessoas

Paulo Aguiar durante sua apresentação no FMB7

Com o tema “Recuperando a Cidade” a capital do Perú, Lima, realizou o 7º Fórum Mundial da Bicicleta.

No período de 22 a 26 de fevereiro de 2018, ocorreu em Lima, no Perú a sétima edição do FMB- Fórum Mundial da Bicicleta, um dos maiores eventos mundiais relacionado ao ciclismo urbano que congrega num mesmo espaço para discussão, cidadãos, coletivos, organizações não governamentais, poder público e iniciativa privada, todos com um interesse comum, buscar soluções para promover e difundir o uso da bicicleta em escala global. 

E é nesse contexto de unidade e de coletividade, que durante todas as edições do FMB, permanecem rígidas as características de horizontalidade do evento, do seu caráter colaborativo e voluntariado, tendo sempre como principal objetivo promover reflexão sobre mobilidade ativa e sustentável de modo a estimular que cidadãos e instituições atuem de forma a impactar positivamente no destino de suas cidades.

O fórum, tocou neste ponto, ao eleger o tema “recuperar a cidade”, reconhecendo que elas, ao longo das décadas foram se afastando do ideal de cidades pensadas a partir do bem estar cidadão, deixando de ser um espaço que congrega todos de forma igualitária e que promove o bem estar, a qualidade de vida, a acessibilidade e segurança.

A programação do evento contou com trabalhos e palestrantes de diversos países, tais como, Estados Unidos, Dinamarca, Nepal, Canadá, Holanda, Espanha, Chile, México, Brasil, Colômbia, entre outros, com palestras de temas variados cujas abordagens iam desde cicloativismo, educação, igualdade de gênero e inovação até políticas públicas, saúde e economia, com destaque para as conferências magnas de Chris Carlsson (EUA), Lotte Bech (Dinamarca), Tomás Echiburú (Chile) e Peter Norton (EUA) que trouxe um tema marcante: “Recupere o passado, ganhe o futuro”.

Em sua passagem pelo FMB o historiador americano fez um brilhante resgate histórico sobre a configuração das cidades no século passado, moldadas para atender a um modelo econômico ditado pela indústria automobilística, modelo este que foi exportado para vários outros países e que hoje se traduz em cidades desumanas, pensadas para os automóveis e que ignoram as pessoas.

Paraciclos em Lima/Peru

Na visão de Norton, as cidades foram se adaptando para abrigar carros e ao longo do tempo as mudanças foram evoluindo não para o arrefecimento de seu uso, mas sim, para a busca de soluções que pudessem diminuir os impactos negativos de sua presença nas ruas,  já que as mortes e acidentes no trânsito aumentavam significativamente.

Ocorre que, no lugar de retirá-los das ruas, a história mostra que o poderio econômico das indústrias somente impôs adaptações na convivência entre usuários e não usuários dos carros individuais.

Na primeira metade do século passado, entre 1920 e 1960, o historiador denomina essa fase como de “controle”. Cada vez mais carros nas ruas, era a hora de criar regras de trânsito, deixando de priorizar o pedestre e valorizar a vida para dar mais valor às leis de trânsito.

A partir deste período, já entre as décadas de 1960 e 1980, Norton entende que vivemos a fase de “Segurança no Carro”. Os números de carros aumentavam, as regras existiam, as mortes foram consideradas inevitáveis, sendo necessário, portanto, tornar o carro mais seguro, mais uma vez, em detrimento de retirá-los das ruas. Foi assim que o mundo viu o surgimento dos cintos de segurança e dos airbags.

Por último, o historiador considera que vivemos a partir da década de 80 a fase da “Responsabilidade”, onde, de algum modo, face os incontestáveis efeitos sobre o aumento de acidentes e mortes nas cidades causadas pelos motoristas de automóveis, toda a responsabilização por elas são atribuídas aos condutores, o que levou, inclusive, a se investir mais nos sistemas de segurança dos carros, como airbags obrigatórios em todas as categorias de automóveis, concluindo, portanto, que é necessário revisitar o passado, no período por ele denominado de “segurança em primeiro lugar” (1900-1920), onde embora os carros já fossem realidade, a prioridade era dos não motorizados, para que se restabeleça a equidade, a pacificação e a preservação de vidas no trânsito.

Pelo sétimo ano consecutivo, o Pedala Manaus participa do FMB e neste ano apresentou no evento duas de suas ações e iniciativas promovidas na capital do Amazonas, o “Convivência Legal” que trabalha a sensibilização dos motoristas de veículos pesadas como ônibus e caminhões e a Quinta Coletiva que incentiva e promove a conscientização e educação de ciclistas iniciantes.

Como se vê, o Fórum Mundial da Bicicleta, mesmo acontecendo anualmente e aparentemente tratando da mesma temática com abordagens diferentes tem se mostrado ao longo desses sete anos um importante instrumento de evolução para quem dele pode participar, além de um momento de congregação, de união, de fortalecimento e de engrandecimento da ciclomobilidade.

A variedade de temas, de trabalhos, de experiências trocadas sempre agrega, soma e desperta nos seus participantes a vontade de interferir localmente a partir de experiências e conhecimentos lá compartilhados.

O FMB 8 em 2019 já tem endereço certo, será em Quito no Equador e em 2020 na cidade Katmandu no Nepal. Alguém aí duvida que o Brasil estará lá presente mais uma vez?

 

Autor: Paulo Aguiar, Engenheiro, Coordenador Geral da ONG Pedala Manaus desde 2011, é Conselheiro Regional da UCB pela Região Norte e atua como Voluntário Bike Anjo no Brasil.

Este texto foi composto para o Edital 01/2018 “Você no FM7” promovido pela UCB – União de Ciclistas do Brasil e financiado pelo Itaú como resultado da participação do/a autor/a no 7º Fórum Mundial da Bicicleta (Lima/Peru – 22-26/02/2017).

 

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