De onde viemos, para donde vamos?

Peguei a minha bicicleta e fui para o Bike Polo, entre uma buzinada e outra, um carro que vinha na contramão e quase nos atropela. Olhei para o colega peruano assustado:

    • É como se fosse la muerte certa a cada instante.
    • Es dicho que tenemos el peor tránsito de Américas.
    • Todos diziam isso da minha cidade e, por onde pedalei, acabei acreditando ser verdade, mas, ahora, posso dizer que Recife es el segundo en el ranking.

O trânsito de Lima é um dos mais caóticos, seja porque permitem que os motoristas entrem à esquerda em qualquer local, seja pelas ensurdecedoras e imparáveis buzinas, seja pela violência que os motoristas jogam seus carros por cima de pedestres e ciclistas. E estávamos no bairro mais nobre e organizado da cidade:

  • VAMOS! AHORA! LOCURA, LOCURA!!! – gritava um ciclista que nos guiava até o fórum.

É de praxe das últimas assembleias de Fóruns Mundiais o apelo para o quanto a sua cidade está dominada pela carrocracia e que o FMB é necessário para combatê-la. Em Lima essa era uma realidade necessária e urgente, porém, não sei se sairão exitosos dessa missão. O FMB7 foi um evento que pouco encantou e pouco trouxe de coisas novas, mas, principalmente, por causa da desorganização curatorial.

O “Donde Vem, Pronde Vão?” (trabalho que apresentei) é um projeto de pesquisa e influência na Origem e Destino de Região Metropolitana do Recife, enfocando em pedestre e ciclistas que não tem acesso à internet e à informação necessárias para participar da Pesquisa. Fomos alocados numa mesa de empreendedorismo. O suor caia do rosto e a cabeça latejava para entregar um portunhol minimamente decente para a plateia, que, ao final, se interessou pelos resultados e pelo processo que usamos para conseguí-los. Porém, logo em seguida, uma apresentação de vendas de uma bicicleta-centopeia mostrava que aquele assunto não se encaixava na sessão.

E assim se sucedeu em diversas tendas, fazendo sempre uma migração constante entre as salas e perdendo os começos e finais de cada uma das palestras. O desânimo para acompanhar nem podia ser afogado numa lata de cerveja, pois era “prohibida pues vinieron y volveran en bici“. Como um condor com dor, migrávamos de sala em sala e nestas corremos para ver Lotte Bech. Essa dinamarquesa foi a única mulher colocada em destaque como ponente, porém não deram um espaço reservado em um charla magistral. Afora que o assunto apresentado não trazia novidades, sendo apenas apanhado de técnicas construtivas para ciclovias, num evento tão político. A curadoria não se preocupou com um equilíbrio de gênero e nem com a garantia de espaços para essa pauta, com destaque para a denúncia de agressão por um participante a uma mulher ao final do Fórum.

Ao fim do domingo, começou uma sessão de despedidas, agradecimentos, sorteio de bicicletas e um show de despedida. Mas, pera… E a assembleia final do fórum com a decisão da próxima sede? Foi deixada fora da programação, na hora do almoço da segunda, em local a ser confirmado, totalmente fora de destaque o espaço representativo do fórum. Não compareci, mas ao que relataram os brasileiros presentes, a bagunça antidemocrática instaurada levou à Catimandu o FMB9.

O FMB7 poderia ter mais acertos, como a palestra genial de Peter Norton e a inspiradora de Chris Carlsson. Mas precisamos dar um giro nesse pedal, desafiar o posto e inovar nas soluções, despistar o poder. Ser como na improvisada Massa Criticas peruana, que despistou os seguidores “praças” e nos levou (com música) para uma praça, para depois outros “praças” nos tirarem de lá aos gritos de:

  • Solo se puede beber en movimento!

 

Texto: Daniel Valença

Este texto foi composto para o Edital 01/2018 “Você no FM7” promovido pela UCB – União de Ciclistas do Brasil e financiado pelo Itaú como resultado da participação do/a autor/a no 7º Fórum Mundial da Bicicleta (Lima/Peru – 22-26/02/2017).

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