Recuperar o passado para ganhar o futuro. Mas qual?

Nos fins de fevereiro deste ano participei do 7º Fórum Mundial da Bicicleta, em Lima – Perú. Fui enquanto representante da Ameciclo – Associação Metropolitana de Ciclistas do Recife – encarregada de apresentar um pouco do que foi o Bicicultura 2017, realizado em terras maurícias. Era o meu terceiro fórum mundial e estava ansiosa pelas experiências e aprendizados que teria. Apesar de encontrar um fórum com programação bastante confusa, duas das três palestras magistrais do evento garantiram o alcance das minhas expectativas. Valeram pelo evento inteiro. Aqui vou falar sobre uma delas.

A segunda palestra da programação ficou a cargo de Peter Norton, historiador e professor estadunidense. Intitulada ‘Recuperar o passado para ganhar o futuro’, o professor fez uma fala marcante e necessária sobre o poder da memória. Ativou um gatilho na minha cabeça.

No Brasil, assim como em muitos outros países, vivemos sob as regras de um sistema social e econômico capitalista, que tem como uma de suas mais perigosas características o poder de fazer crer que a maneira como as coisas estão não pode ser mudada. Sempre foi assim. Não há outro modo possível. Se não for assim, será a barbárie, o primitivismo desolador e perigoso.

Peter nos lembrou que a história, a memória, é escrita por quem mantém o status quo. Nos lembrou que o que parece ser a verdade é apenas uma questão de narrativa, de ponto de vista. Sendo apenas um lado da história, é possível reescrever a memória com os pontos que faltam, dando voz e vez à um passado negado. Mas, se o passado no passado está, qual é a importância de resgatá-lo? Fomos todos lembrados que o passado tem grande influência na forma como nos portamos no presente e no modo como preparamos o tempo que virá.

Disse o professor: “a forma de um certo passado justifica um certo futuro”. É para ajudar a empurrar o mundo para um futuro diferente do futuro que está fadado a encontrar, com base no passado contado hoje, que precisamos reescrever a história. É muito importante lembrar a quem não está na luta diária, em movimentos sociais e instituições, como era o Recife e todas as nossas cidades e povoações (pois havia gente em Brasília antes de Brasília) no tempo em que seu espaço público não tinha sido roubado das pessoas e dado aos veículos motorizados.

Fazer saber a todos que não foi sempre assim e que nossas cidades já foram as cidades humanas pelas quais lutamos hoje, e não faz muito tempo. Se já foi assim, é possível voltar a ser. Não é um desejo de inventar a roda, não cabe a contraposição que diz “não somos Amsterdã”, ou qualquer outra cidade na Europa. Nós já temos o que é preciso, pois nós já fomos Recife. Não há impossibilidade para reconhecer um caminho errado, aprender com ele e retraçar passos deixados de lado.

É importante também para acalentar quem está na linha de frente, os ativistas cansados de guerra, nas horas em que se desesperam por retrocessos e mudanças que nunca vêm. É importante lembrá-los de que nunca estiveram sozinhos, sempre houve luta. Sempre houve resistência. Nunca houve garantias. E nunca foi fácil. É necessário para aprendermos a ter ‘paciência histórica’, como ouvi um companheiro dizer, em alguma discussão nas belas ruas de Cusco.

Entendendo que a história é feita de altos e baixos, nos estimulando e inspirando por cidades para pessoas que já foram nossas próprias cidades, sabendo que nada é para sempre, entendemos que é preciso persistir. E resistir.

 

Autora: Lígia Lima, integrante da Ameciclo.

 

Este texto foi composto para o Edital 01/2018 “Você no FM7” promovido pela UCB – União de Ciclistas do Brasil e financiado pelo Itaú como resultado da participação do/a autor/a no 7º Fórum Mundial da Bicicleta (Lima/Peru – 22-26/02/2017).

Share Button

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *