Arquivo do Autor: André Geraldo Soares

De onde viemos, para donde vamos?

Peguei a minha bicicleta e fui para o Bike Polo, entre uma buzinada e outra, um carro que vinha na contramão e quase nos atropela. Olhei para o colega peruano assustado:

    • É como se fosse la muerte certa a cada instante.
    • Es dicho que tenemos el peor tránsito de Américas.
    • Todos diziam isso da minha cidade e, por onde pedalei, acabei acreditando ser verdade, mas, ahora, posso dizer que Recife es el segundo en el ranking.

O trânsito de Lima é um dos mais caóticos, seja porque permitem que os motoristas entrem à esquerda em qualquer local, seja pelas ensurdecedoras e imparáveis buzinas, seja pela violência que os motoristas jogam seus carros por cima de pedestres e ciclistas. E estávamos no bairro mais nobre e organizado da cidade:

  • VAMOS! AHORA! LOCURA, LOCURA!!! – gritava um ciclista que nos guiava até o fórum.

É de praxe das últimas assembleias de Fóruns Mundiais o apelo para o quanto a sua cidade está dominada pela carrocracia e que o FMB é necessário para combatê-la. Em Lima essa era uma realidade necessária e urgente, porém, não sei se sairão exitosos dessa missão. O FMB7 foi um evento que pouco encantou e pouco trouxe de coisas novas, mas, principalmente, por causa da desorganização curatorial.

O “Donde Vem, Pronde Vão?” (trabalho que apresentei) é um projeto de pesquisa e influência na Origem e Destino de Região Metropolitana do Recife, enfocando em pedestre e ciclistas que não tem acesso à internet e à informação necessárias para participar da Pesquisa. Fomos alocados numa mesa de empreendedorismo. O suor caia do rosto e a cabeça latejava para entregar um portunhol minimamente decente para a plateia, que, ao final, se interessou pelos resultados e pelo processo que usamos para conseguí-los. Porém, logo em seguida, uma apresentação de vendas de uma bicicleta-centopeia mostrava que aquele assunto não se encaixava na sessão.

E assim se sucedeu em diversas tendas, fazendo sempre uma migração constante entre as salas e perdendo os começos e finais de cada uma das palestras. O desânimo para acompanhar nem podia ser afogado numa lata de cerveja, pois era “prohibida pues vinieron y volveran en bici“. Como um condor com dor, migrávamos de sala em sala e nestas corremos para ver Lotte Bech. Essa dinamarquesa foi a única mulher colocada em destaque como ponente, porém não deram um espaço reservado em um charla magistral. Afora que o assunto apresentado não trazia novidades, sendo apenas apanhado de técnicas construtivas para ciclovias, num evento tão político. A curadoria não se preocupou com um equilíbrio de gênero e nem com a garantia de espaços para essa pauta, com destaque para a denúncia de agressão por um participante a uma mulher ao final do Fórum.

Ao fim do domingo, começou uma sessão de despedidas, agradecimentos, sorteio de bicicletas e um show de despedida. Mas, pera… E a assembleia final do fórum com a decisão da próxima sede? Foi deixada fora da programação, na hora do almoço da segunda, em local a ser confirmado, totalmente fora de destaque o espaço representativo do fórum. Não compareci, mas ao que relataram os brasileiros presentes, a bagunça antidemocrática instaurada levou à Catimandu o FMB9.

O FMB7 poderia ter mais acertos, como a palestra genial de Peter Norton e a inspiradora de Chris Carlsson. Mas precisamos dar um giro nesse pedal, desafiar o posto e inovar nas soluções, despistar o poder. Ser como na improvisada Massa Criticas peruana, que despistou os seguidores “praças” e nos levou (com música) para uma praça, para depois outros “praças” nos tirarem de lá aos gritos de:

  • Solo se puede beber en movimento!

 

Texto: Daniel Valença

Este texto foi composto para o Edital 01/2018 “Você no FM7” promovido pela UCB – União de Ciclistas do Brasil e financiado pelo Itaú como resultado da participação do/a autor/a no 7º Fórum Mundial da Bicicleta (Lima/Peru – 22-26/02/2017).

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Não existe inclusão sem diversidade

Acesse o texto de Livia Suarez aqui.

Este texto foi composto para o Edital 01/2018 “Você no FM7” promovido pela UCB – União de Ciclistas do Brasil e financiado pelo Itaú como resultado da participação do/a autor/a no 7º Fórum Mundial da Bicicleta (Lima/Peru – 22-26/02/2017).

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FMB 7 – para além do debate

Estive presente no FMB-7, no Peru, para, além de aprender com outras experiências, apresentar um pouco do trabalho da sociedade civil, especialmente pela BH em Ciclo, realizado em Belo Horizonte, através do PlanBici.

O PlanBici é o fruto de um processo iniciado no fim do ano de 2016, com a incidência nas eleições municipais, e que continuou na gestão do prefeito eleito. O Planbici é o Plano de Ações pela Mobilidade por Bicicletas em BH, e dialoga com as demandas das campanhas Bicicleta nas Eleições e também #D1Passo, com o Programa de Governo do – então – candidato, com o Plano de Mobilidade de Belo Horizonte e também com a Política Nacional de Mobilidade Urbana.

Contei um pouco do processo de elaboração deste plano, que foi um trabalho conjunto com o poder público, e sobre a dificuldade de implementá-lo. Os desafios com relação à destinação de recursos e priorização da bicicleta dentro dos orçamentos e políticas públicas é uma realidade comum de diversas cidades da América Latina.

Foi a minha quarta experiência em Fóruns Mundiais, e um dos destaques positivos no meu ponto de vista foram algumas apresentações que levantaram a discussão de gênero. A pesquisa “Bicicleta e Gênero: Análise dos Fóruns Mundiais da Bicicleta”, o projeto “Ella se Mueve Segura” e a apresentação “El Acoso Callejero en Perú” chamaram a atenção por mostrarem análises e pesquisas sobre o tema.

Além disso, foi apresentado um manifesto, chamado “Mujeres, territorios y movilidad sostenible”, elaborado pela comissão organizadora desta edição do Fórum, com alguns princípios a serem levados para a Assembleia, com a proposta de serem incorporados como princípios do Fórum.  Um destes princípios, o número 5, diz que “Nos comprometemos a que dentro del FMB y en nuestros colectivos se generen espacios de trabajo libres y seguros, así como acciones con enfoque de género.”.

Infelizmente, nem os debates e apresentações que aconteceram no Fórum, nem a elaboração e leitura do Manifesto impediram que ocorresse violência de gênero dentro do espaço que deveria ser seguro para mulheres. A denúncia foi feita após uma das palestras de destaque, e mais uma vez o Manifesto foi lido pelas mulheres da comissão organizadora.

Durante a Assembleia, que ocorreu de maneira conturbada (sem estar na programação, sem pauta pré-estabelecida e sem relatoria), a questão levantada pela própria comissão organizadora, de discutir sobre os princípios do Manifesto, foi ignorada. Esta edição mostrou que apesar dos avanços na discussão da pauta, deixou a desejar a materialização de ações/ na consideração dentro do espaço de decisão, como a Assembleia.

A apresentação para o próximo Fórum, a ser realizado em Quito, no Equador, foi inspiradora, desde a sua concepção, baseada na minga – trabalho coletivo realizado no interesse coletivo, característica dos povos andinos, como também na paridade de gênero desde a organização. Que continuemos a discussão, e que ela evolua, junto com o evento!

 

Autora: Amanda Corradi – integrante da BH em Ciclo

 

Este texto foi composto para o Edital 01/2018 “Você no FM7” promovido pela UCB – União de Ciclistas do Brasil e financiado pelo Itaú como resultado da participação do/a autor/a no 7º Fórum Mundial da Bicicleta (Lima/Peru – 22-26/02/2017).

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Recuperar o passado para ganhar o futuro. Mas qual?

Nos fins de fevereiro deste ano participei do 7º Fórum Mundial da Bicicleta, em Lima – Perú. Fui enquanto representante da Ameciclo – Associação Metropolitana de Ciclistas do Recife – encarregada de apresentar um pouco do que foi o Bicicultura 2017, realizado em terras maurícias. Era o meu terceiro fórum mundial e estava ansiosa pelas experiências e aprendizados que teria. Apesar de encontrar um fórum com programação bastante confusa, duas das três palestras magistrais do evento garantiram o alcance das minhas expectativas. Valeram pelo evento inteiro. Aqui vou falar sobre uma delas.

A segunda palestra da programação ficou a cargo de Peter Norton, historiador e professor estadunidense. Intitulada ‘Recuperar o passado para ganhar o futuro’, o professor fez uma fala marcante e necessária sobre o poder da memória. Ativou um gatilho na minha cabeça.

No Brasil, assim como em muitos outros países, vivemos sob as regras de um sistema social e econômico capitalista, que tem como uma de suas mais perigosas características o poder de fazer crer que a maneira como as coisas estão não pode ser mudada. Sempre foi assim. Não há outro modo possível. Se não for assim, será a barbárie, o primitivismo desolador e perigoso.

Peter nos lembrou que a história, a memória, é escrita por quem mantém o status quo. Nos lembrou que o que parece ser a verdade é apenas uma questão de narrativa, de ponto de vista. Sendo apenas um lado da história, é possível reescrever a memória com os pontos que faltam, dando voz e vez à um passado negado. Mas, se o passado no passado está, qual é a importância de resgatá-lo? Fomos todos lembrados que o passado tem grande influência na forma como nos portamos no presente e no modo como preparamos o tempo que virá.

Disse o professor: “a forma de um certo passado justifica um certo futuro”. É para ajudar a empurrar o mundo para um futuro diferente do futuro que está fadado a encontrar, com base no passado contado hoje, que precisamos reescrever a história. É muito importante lembrar a quem não está na luta diária, em movimentos sociais e instituições, como era o Recife e todas as nossas cidades e povoações (pois havia gente em Brasília antes de Brasília) no tempo em que seu espaço público não tinha sido roubado das pessoas e dado aos veículos motorizados.

Fazer saber a todos que não foi sempre assim e que nossas cidades já foram as cidades humanas pelas quais lutamos hoje, e não faz muito tempo. Se já foi assim, é possível voltar a ser. Não é um desejo de inventar a roda, não cabe a contraposição que diz “não somos Amsterdã”, ou qualquer outra cidade na Europa. Nós já temos o que é preciso, pois nós já fomos Recife. Não há impossibilidade para reconhecer um caminho errado, aprender com ele e retraçar passos deixados de lado.

É importante também para acalentar quem está na linha de frente, os ativistas cansados de guerra, nas horas em que se desesperam por retrocessos e mudanças que nunca vêm. É importante lembrá-los de que nunca estiveram sozinhos, sempre houve luta. Sempre houve resistência. Nunca houve garantias. E nunca foi fácil. É necessário para aprendermos a ter ‘paciência histórica’, como ouvi um companheiro dizer, em alguma discussão nas belas ruas de Cusco.

Entendendo que a história é feita de altos e baixos, nos estimulando e inspirando por cidades para pessoas que já foram nossas próprias cidades, sabendo que nada é para sempre, entendemos que é preciso persistir. E resistir.

 

Autora: Lígia Lima, integrante da Ameciclo.

 

Este texto foi composto para o Edital 01/2018 “Você no FM7” promovido pela UCB – União de Ciclistas do Brasil e financiado pelo Itaú como resultado da participação do/a autor/a no 7º Fórum Mundial da Bicicleta (Lima/Peru – 22-26/02/2017).

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Convocatória para Assembleia Geral da UCB

Convoca CONVOCATÓRIA

 

Através da presente ficam convocadas todas as Associadas Instituições Atuantes da UCB – União de Ciclistas do Brasil para a Assembleia Geral:

  • Data: 10 de junho de 2018.
  • Horário: 10h20.
  • Local: Praça Mauá, 1 – Centro – Rio de Janeiro/RJ.
  • Pauta: 1) Reforma do Estatuto;
    ………….2) Reforma do Regimento Interno;
    ………….3) Homologação do Balanço Financeiro de 2017;
    ………….4) Assuntos gerais.

 

Balneário Camboriú/SC, 24 de maio de 2018.

 

___________________________________
André Geraldo Soares
Diretor Presidente
União de Ciclistas do Brasil – UCB

 

Clique aqui para baixar a Convocatória em PDF.

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Bicicleta e Educação: um brinquedo sério

Reunindo pessoas dos vários cantos das Américas com o lema “ RECUPERANDO A CIDADE”, tendo como elemento de pauta, a Bicicleta, aconteceu a 7 ed. do Fórum Mundial Da Bicicleta. A cidade Lima foi eleita para acolher este povo bicicleteiro. Continue lendo

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7º Fórum Mundial da Bicicleta: Recuperando Cidades e Pessoas

Paulo Aguiar durante sua apresentação no FMB7

Com o tema “Recuperando a Cidade” a capital do Perú, Lima, realizou o 7º Fórum Mundial da Bicicleta.

No período de 22 a 26 de fevereiro de 2018, ocorreu em Lima, no Perú a sétima edição do FMB- Fórum Mundial da Bicicleta, um dos maiores eventos mundiais relacionado ao ciclismo urbano que congrega num mesmo espaço para discussão, cidadãos, coletivos, organizações não governamentais, poder público e iniciativa privada, todos com um interesse comum, buscar soluções para promover e difundir o uso da bicicleta em escala global.  Continue lendo

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Vamos escolher a cidade sede do Bicicultura 2020!

O BiciculturaEncontro Brasileiro de Mobilidade por Bicicleta e Cicloativismo de 2018 ocorrerá no Rio de Janeiro (08-10/06) e o Bicicultura de 2019 ocorrerá em Maringá/PR (data a ser definida). Continue lendo

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Recuperando as pessoas e as cidades: a abordagem de Peter Norton

O historiador Peter Norton (University of Virginia) palestrando no FMB7

Embora as cidades estejam sendo construídas pelos seres humanos, hoje, diferente da sua origem, elas não estão sendo construídas para as pessoas, mas para um modelo econômico e por isso sua principal norma de mobilidade é direcionada para o automóvel individual. Continue lendo

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A Bicicleta e a Epilepsia

Recentemente, um acidente em Copacabana, no estado do Rio de Janeiro, chamou muita atenção da imprensa e da sociedade em geral. Várias pessoas foram feridas e um bebê morreu após serem atingidos por um veículo desgovernado que subiu o calçadão e a ciclovia, ambos lotados no momento do atropelamento. Continue lendo

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