Fórum, neve, províncias e seus vulcões. Muita bike e conexões

Minha primeira vez no exterior, em um evento de tamanha magnitude, em um país surpreendente como o Equador. O intercâmbio foi algo incrível, desde ideias inovadoras tecnologicamente, como percepções simples de pessoas com realidades distintas.

Minha experiência com o fórum mundial da bicicleta, começou com o tema mobilidade já em nossa partida no embarque em Barra Mansa com destino à Guarulhos, no ônibus vindo do Rio de Janeiro que seguiria até Santos. Paguei o dobro do preço divulgado na internet, pelo trecho de Barra Mansa à Guarulhos, sendo que o passageiro que vinha do Rio de Janeiro e embarcou 130km antes de mim havia pagado metade. Só consegui reclamar no retorno, pois dias antes no momento da compra não tinha um gerente disponível no guichê, minha companheira estava atrasada e com o carro estacionado numa vaga ruim e eu com um bebê de colo que chorava com a demora enquanto questionava a atendente sobre a diferença em minha passagem.  Já no ônibus em viagem enviei um e-mail para o SAC da transportadora e até então não tive retorno, demora, burocracia, falta de transparência e sem nenhuma resolução, tive eu que optar por entrar com uma ação, não só pelo fato do dinheiro, mas sim por entender que somente reclamando e lutando que as coisas poderão melhorar em nosso país.

Já em São Paulo a coisa mudou de figura, comparado ao Rio de janeiro, senti muita diferença. O terminal de Guarulhos tem conexão com o trem, a um preço justo, organizado e integrado com outros modais. Ao desembarcar fomos indicados a pegar o ônibus gratuito que sai da estação do trem e leva ao aeroporto, algo raro de se ver funcionando tão bem gratuitamente.

Após 7 horas de viagem chegamos em Quito, impressionante, 6 dessas horas foram sobrevoando território brasileiro.

Como chegamos 3 dias antes da abertura do evento, optamos por explorar esse país que não imaginávamos como era rico e quando poderíamos volver (voltar). Meu parceiro de Volta Redonda, Vicentese já tinha reservado o carro e planejado todo o itinerário, mas mesmo planejando nem tudo saiu como o combinado.

O veículo escolhido inicialmente era uma caminhonete, para poder subir sem preocupação aos pontos máximos de acesso a carros nos vulcões de nossa programação, enfim a locadora não teve essa preocupação e disponibilizou um sedan, não tão recomendável para as condições previstas de nossa exploração. No outro dia tentamos trocar, mas não teve jeito, seguimos com o sedan que faltou 10% de força, oxigênio e tração para chegar no ápice onde somente pernas, helicópteros e off roads conseguem alcançar.

No primeiro dia de viagem de carro fiquei impressionado com as carreteras (rodovias), asfalto impecável, vias muito bem sinalizadas com 4 faixas de rolagem e acostamento, pedágio barato comparado a infraestrutura.

Outro ponto impressionante foi o valor do combustível, um dólar e 85 cents pelo galão (5 litros), aproximadamente 1 real e 48 centavos o litro da gasolina, isso tabelado em todo território nacional, rodamos 1200KM com cento e vinte reais. Vicente levou a pior nessa, pois o combinado era ele alugar o carro, enquanto eu e Augusto ficávamos por pagar o combustível e outros gastos.

O primeiro lugar que visitamos nessa viagem foi a Laguna Quilotoa, uma lagoa que se formou na cratera de um extinto vulcão. Lugar impressionante, com acesso gratuito, a única cobrança era o estacionamento por menos de um dólar, nada mais justo para ajudar a manter o local. Quando chegamos o tempo estava fechado, com pouca visibilidade, nada que boas energias, sopros de lobos e orações não mudassem a situação. Descemos de caminhada no caminho íngreme, de pedra, areia e barro, pois estava molhado, descemos bem animados, enfim as preces haviam adiantado, esquecemos da volta e o tempo que precisávamos para chegar no próximo destino projetado. Ao chegar na lagoa, apreciamos a vista, mas se tivéssemos chegado mais cedo poderíamos explorar com caiaques ou stand up paddles, porém com pouco tempo o único modal disponível era o burro para ascensão a entrada do parque. Não aceitamos, fomos resistentes, já para crianças e idosos é uma ótima opção. Não sei se o uso do animal faz parte da cultura ou quanto ao impacto negativo na trilha ou pra saúde do animal, sei que parece que havia projeto para um teleférico, mas o que víamos eram estruturas abandonadas.

Seguimos na carretera rumo a Rio Bamba, dormimos e de lá mudamos os planos e fomos a El Baños, destino turístico de esportes de aventura.

Muitas bicicletas no caminho, uma antiga estrada que beira encostas e quedas d’água passa por túneis e levam o ciclista de maneira segura e prazerosa pelos atrativos da região. Lugar fantástico que indico a todos que fiquem ao menos 3 dias para aproveitar o máximo de lá. O aluguel de Mountain Bikes estava a partir de cinco dólares a diária. Foi lá que fotografei essa adaptação peculiar do selim no quadro da bicicleta, alguém se arrisca a dizer pra que exatamente serve?

Ah, em Baños fizemos Tirolesa (Tirolínia), radical! Podemos contar como mais um modal? Não posso esquecer o teleférico da volta, tive muito mais medo, deu pra perceber a altura com a demora e tremi na base com a vibração.

No dia seguinte partimos ao ponto máximo da viagem, ao menos de descobertas e altitude, fomos ao Vulcão Cotopáxi.

Dentro do parque vimos muitos micro ônibus com dezenas de bicicletas no teto, provavelmente os setores de acesso ao parque são feitos de bike e para subir ao vulcão os turistas vão nos veículos, pois é uma subida bem difícil por condições de terreno, físicas e atmosféricas.  Lembra do sedan? Subiu com muito custo, faltando 2 curvas para chegar no ponto máximo onde os off roads ficam estacionados. Encostamos num canto, calçamos ele com pedras e subimos caminhando, rezando pro carro não deslizar montanha abaixo. Fomos até o refúgio a 4864 metros de altitude, vimos neve, não vou contar que choramos e nos emocionamos pela história de vida e superação de cada um de nós, ter conseguido ver neve e chegar num lugar tão extremo. O mais impressionante foi descobrir que ali não era o topo, faltava mais 1033 metros para o cume, coisa que normalmente alpinistas treinados chegam com mais 12 horas, subindo durante a noite e madrugada. No refúgio tinham mensagens de muitos brasileiros, deixamos a nossa também, levamos o nome do Bike Anjo, Bike Anjo Volta Redonda, UCB, Bike para Todos, Volta Redonda, Rio de Janeiro e Brasil a um ponto extremo na terra. Nos orgulhamos muito por isso!

Partimos para Quito, chegamos a noite no Hostel Huasi Lodge, muito massa, cheio de Bike Anjos e outros participantes do evento, Brasileiros, Equatorianos e Colombianos. Indico Hostel como o melhor meio de hospedagem para situações assim, as trocas ali foram tremendas!

Acordamos e partimos para a abertura do 8º Fórum Mundial da Bicicleta Entreguei-me de corpo e alma, participando do máximo de atividades possíveis. Cada um teve uma vivência única, mas se vale um crítica e sugestão para a organização de eventos assim, uma ideia seria unir as atividades por tema ou enxugar o número de atividades, pois a programação era extensa e tinham muitas coisas acontecendo simultaneamente que não pude participar.

A primeira coisa que fiz foi aleatória, no caminho do centro de convenções tinha uma pista montada para uma corrida de bicicletas de equilíbrio com mais de 30 crianças de até 5 anos de idade, uma fofura atrás da outra. Atividade essa que queremos replicar por aqui.

A partir daí já não lembro a cronologia dos fatos, sei que perdi a apresentação do projeto da ODKV de Recife.  Posteriormente vi fotos e fiquei sabendo dos relatos. Emocionante ver o brilho nos olhos de Bárbara Barbosa em sua apresentação da ODKV, ferramenta essa que inspirou nosso projeto aqui em VR. Foi demais saber da participação de alunos de uma escola local que assistiram a  apresentação e que contribuíram muito ao mostrar novos pontos de vista que só crianças livres de preconceitos podem trazer.

Por ter uma ligação musical tão grande quanto tenho com a bicicleta, participei de algumas atividades com a Cyclophônica, pois unia duas de minhas paixões. O primeiro e mais marcante momento com eles, foi pedalando desde a sede do evento até a escola de arquitetura, fomos tocando com elementos variados e sem ensaio, mas chamamos a atenção com a música pra causa da mobilidade. Chegando lá percebi como são grandes as conexões entre a arquitetura, a mobilidade e a música da Cyclophônica, cujo a maioria dos instrumentos são baseados em reaproveitamento, com canos de pvc, mangueiras e conduítes muito usados na construção civil. Durante a apresentação para esse público seleto, virei a bicicleta de cabeça para baixo se assim pode ser dito e naquele instante a Bike adquiriu mais uma função, virou um instrumento de percussão.

Dentre tantas atividades é chegado o grande dia. Estar no ​ Foro Mundial de la Bicicleta  

Na sexta-feira, dia da apresentação do Bike Para Todos, levei um susto, após o almoço não tinha uma viva alma na sala em que eu estava. As apresentações anteriores haviam atrasadas e muitas pessoas ainda estavam no almoço. Nessa hora mandei mensagem pro grupo de brasileiros e saí no centro de convenções à convidar as pessoas pra assistir, “”Vamos a la sala 3, Bike para todos Inclusión y Accesibilidad a través de la bici”. Por sorte temos um rede incrível e consegui quase que encher a sala, com amigos do Bike Anjo Brasil, UCB – União de Ciclistas do Brasil e outras entidades, organizadores do fórum e pessoas de outros países que consegui convidar e se interessaram pelo projeto.

Foi muito satisfatório ver o interesse de troca de grupos do Chile e outros países que estão caminhando nesse desafio da inclusão e acessibilidade em suas regiões, nesse momento tive o sentimento de dever cumprido.

Mais emocionante ainda foi no dia anterior, durante a apresentação do projeto @JavyTeCuenta do Panamá, um kit com 2 rodas que pode transformar qualquer bicicleta em um triciclo leve e prático, criado pelo irmão de Javy, um rapaz extraordinário, determinado a superar qualquer condição, ele trabalha, dirige e agora anda de bicicleta por ter pessoas especiais em sua vida. Ele deixou um recado, fez questão de falar por si só, mesmo com dificuldades na fala: “Nunca olviden que en la vida no es facil” (nunca se esqueça que a vida não é fácil).

No último dia do fórum fomos em direção ao Parque Las Cuadras, ensinar pessoas a pedalar. Uma contrapartida da vaquinha que viabilizou a ida de alguns Anjos ao Fórum, muitos outros como eu foram contemplados no edital de parceria do Itaú com a UCB, mais uma vez muito obrigado, quero poder fazer muito mais pela União de Ciclistas do Brasil, essa é uma entidade que faz a diferença!

Essa EBA (Escola Bike Anjo) em Quito, foi um sucesso pela parceria com o grupo local Carishinas en Bici. Elas tem um programa exclusivo de iniciação à mulheres no uso da bicicleta com segurança e liberdade, ensinam a pedalar, dão orientações, acompanham em rotas e fazem atividades regulares de empoderamento com mulheres através da bicicleta.

Nesse dia comecei a chorar quando fui ensinar um niño de aproximadamente 4 anos, Antônio Vargas, que muito esforçado confiou em mim para ensiná-lo. Isso só foi possível com o intercâmbio de um Colombiano que também participou do fórum expondo um projeto que torna jovens profissionais na mecânica de bicicleta. Como o menino era pequeno e tirando as rodinhas de sua bicicleta e mesmo abaixando ao máximo o selim, ainda assim não daria altura, nosso amigo deu a ideia de tirar o banco e amarrar um casaco no lugar, foi o ajuste que precisávamos para dar andamento no aprendizado do equilíbrio.

Ao final foi só alegria, só nos resta agradecer e multiplicar os frutos dessa oportunidade única.

A cidade de quito onde ocorreu o fórum tem suas particularidades no tema a cidade e as pessoas. Confira minha lista com 11 dessas curiosidades:

  • Domingo a noite não há carros nas ruas após às 23h, nem estacionado.
  • Fomos alertados por diversas vezes que o centro “és peligroso”, por isso ninguém estaciona a noite nas ruas. Não percebi nenhum perigo, comparado a nossa realidade de brasil ou rio de janeiro.
  • A cidade é bem limpa, sujeira e bagunça só pela manhã quando abrem os comércios e muitos itens são vendidos nas calçadas, mas ao final do dia já está tudo limpo e no lugar.
  • Os trabalhadores almoçam muito cedo, antes das 10 da manhã já vimos pessoas almoçando no mercado próximo ao centro. Refeições completas, com direito a entrada e prato principal.
  • O Troller (BRT) é muito barato, menos de 1 real. As estações não tem grades ou separação para evitar invasões, pois ou pelo preço ou por educação esse tipo de coisa não acontece lá. A maioria dos Trollers tem um agente de segurança uniformizado acompanhando a viagem.
  • As crianças desde muito novas andam livremente pelas ruas, seja para brincar ou ir à escola acompanhados de outras crianças:
  • Há muitas sinalizações e vias exclusivas para ciclistas e quando não há a faixa do BRT é uma faixa compartilhada com ciclistas:
  • Os parques e outros atrativos são muito organizados. Muitas vezes a entrada é gratuita ou um preço bem barato comparado por exemplo ao parque do Itatiaia e outros atrativos do Brasil.
  • A Biciquito, bicicleta compartilhada de lá funciona como uma corrida maluca, pois você tem o prazo de 45 minutos para entregar na próxima estação, que você já tem que indicar na saída, mesmo sem conhecer bem o lugar. Assim que chega na nova estação pode entregar a bicicleta ou prorrogar o tempo. Andei tenso, preocupado com o tempo, pois dias antes um de nossos amigos brasileiros atrasou na entrega e parece que teve um alerta lançado para todos os policiais metropolitanos com seu nome e número da bicicleta que deveria ser recolhida e ele multado.
  • O mapa das estações da Biciquito fica no chão, será que é a melhor solução?
  • Um fraldário em um banheiro masculino, vivi para ver isso e foi em um Shopping em Quito.

 

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Texto: André Vaz – Gestor de Turismo, Hospitalidade e Entretenimento pela UGB. Ciclista, Bike Anjo, Associado a UCB, Publicitário e Empreendedor a partir de seu negócio principal a Agência Hashtag. No campo das artes é Escritor, Tenor, Compositor, Vocalista e Gaitista da banda The Milk Brothers Band. Em 2017 Participou da reativação da Acíclica, Associação de ciclismo, caminhada e mobilidade sustentável do Sul Fluminense, na qual já não faz parte, mas a partir dela hoje compõe o COMUTRAN (Conselho de Mobilidade Urbana e Trânsito de Volta Redonda), sendo representante dos pedestres.  Há 2 anos na Associação Bike Anjo ensinando pessoas a pedalar, entrou logo em seguida na articulação da Bike Anjo Volta Redonda e descobriu que juntos podemos muito mais! Hoje o grupo é muito atuante e está se organizando para ampliar os projetos como o Bike para todos e desenvolver novas frentes de trabalho. André tem como missão, unir pessoas e ideias, quebrando barreiras políticas, econômicas e sociais. “Gosto de tudo com bicicleta, minha paixão é o cicloturismo e MTB, mas quero uma de cada tipo, uma bike pra cada ocasião: cargas, BMX, fixa, Speed…”.

Este texto foi composto para o Edital 01/2019 “Você no FM8” promovido pela UCB – União de Ciclistas do Brasil e financiado pelo Itaú como resultado da participação do/a autor/a no 8º Fórum Mundial da Bicicleta (Quito/Equador – 25 e 28/04/2019).

 

 

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