Um fórum nas alturas: sensações e outras aberturas

A oitava edição do Fórum Mundial da Bicicleta (FMB8) chegou na segunda capital mais alta da América Latina, a 2850 metros de altitude. Quito, no Equador, é uma cidade alongada por entre as montanhas na cordilheira dos andes. Edificada em um vale, está protegida (ou ameaçada?) pelo vulcão Pichincha (que ao contrário da palavra em português pechincha, não deve ser menosprezado, principalmente pelo seu tamanho e poderio), com 4794 metros de altitude.

É possível acessá-lo por um teleférico há alguns minutos do centro da cidade. Em pouco menos de 20 minutos saímos dos já ofegantes 2850 metros de altitude para 4100 metros, contemplando a cidade que fica cada vez mais minúscula diante das imensas “montañas” vulcânicas. É lá que a gente percebe mais fortemente os efeitos do mal de altura ou soroche. Mas é preciso experimentar no corpo a sensação de caminhar nas montanhas e aventurar-se no “columpio en las nubes” – realmente de tirar o fôlego. Digo “é preciso” para compreender a imensa conexão que o povo equatoriano tem com os elementos da natureza, ou pachamama (palavra quíchua – povo andino que viveu nesta região), la madre tierra. E foi com uma cerimônia indígena que nossa imersão no fórum começou.

“La tierra es mi cuerpo.
El agua es mi sangre.
El aire es mi aliento.
El fuego es mi espíritu.”

Foram com estas mágicas palavras que fomos recepcionadas/os e acolhidas/os na abertura do FMB8. A idosa xamã invocava os elementos da natureza rodeada de crianças, que participaram massivamente nos dois primeiros dias do evento. Uma cerimônia avassaladora. O sol se fazia presença, assim como a lua, e cercadas por aquelas montanhas a sábia mulher já nos indicava um dos temas que mais estaria em debate no fórum: o fortalecimento do feminismo.

É cada vez mais urgente que temas interseccionais estejam ocupando a temática da mobilidade ativa. Entendendo que a interseccionalidade é, conforme a pesquisadora Carla Akotirene, “uma ferramenta teórica e metodológica para pensar a inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo e patriarcado”, tão em voga para pensarmos o desenho das cidades e sua distribuição simbólica e territorial. Como alimentar e garantir o debate interseccional, étnico e plural diante da pauta da mobilidade ativa?

A capital da Unasul (União das Nações Sul-Americanas, composta por 12 países sul-americanos e com sede na Mitad del Mundo) nos deixa sem ar não só pela altitude, mas por toda diversidade e beleza guardada historicamente. As ruas de Quito estão inundadas de elementos que nos questionam sobre os processos colonizatórios, e como estes ainda interferem no planejamento urbano na cidade. Como preservar a história, seus monumentos, seu povo, diante do avanço devastador da cafetinagem capitalística (termo utilizado por Suely Rolnik)?

É difícil respirar ou ter fôlego a 2850 metros de altitude, mas o que mais dificulta a respiração em Quito é a poluição do ar causada pelos transportes motorizados, principalmente pelos ônibus (que são muitos e espantosamente coloridos) que circulam velozmente pelas ruas da cidade. Vale ressaltar que o valor do transporte coletivo é relativamente acessível (entre 0,25 a 0,40 centavos de dólar dependendo do destino) e os poucos flagrantes feitos na região central da cidade percebi que motoristas de ônibus mantém uma distância segura de pedalantes. Aliás os corredores de ônibus são compartilhados com bicicletas e devidamente sinalizados.

Se a pauta feminista ocupou boa parte da programação e do debate no FMB8 foi pela forte (e cada vez mais urgente) articulação de mulheres latino americanas, reflexo também no momento atual que vivemos. Além disso, não podemos mais negligenciar pautas que interferem diretamente no deslocamento urbano, no direito à cidade e no desenvolvimento de sociedades mais equânimes. E este é ainda o maior desafio de eventos como estes, principalmente do Fórum: garantir espaços plurais e democráticos de discussão que buscam efetivamente incluir a diversidade e reduzir as desigualdades sociais, de gênero, raça e etnias. Porque este também é nosso compromisso: redemocratizar os espaços comuns e lutar pelo direito de existir transitando (lentamente) nas ruas.

Apesar do soroche, da poluição do ar, da degradação de povos e seus costumes, bem como da natureza, a imersão em Quito me encharcou de latinidade. Há um colorido andino que resiste e encanta e contagia e seduz. Uma população majoritariamente indígena, católica, gentil e acolhedora. Uma cidade, um país, uma região que merece ser (re)conhecida por toda sua exuberância e (bio)diversidade.

Aprendi muito nesta intensa e efêmera vivência no Equador. E também pude compartilhar um pouco do que tenho pesquisado e pensando sobre bicicleta no cotidiano e na academia (que para mim tem se tornado cada vez mais sinônimos). Para encerrar o texto divido um fragmento da minha apresentação no FMB8 realizada no sábado (27 de abril), na Sala 3, no Centro de Convenções Eugenio Espejo. O sol implorava para entrar naquela sala escura e fria. Estava meio cheia, meio vazia, mas os afetos transbordavam. E entre uma mistura de línguas, ora em espanhol, ora em português, palavras, imagens, sensações e gestos foram sendo lançados ao chão, ao vento, ao universo.

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Texto de apresentação da ponencia: “Bicicleta para uma cidade sensível”

“Entre o ponto de partida e nosso destino há um universo urbano para ser descoberto e sentido. Um mundo de sensações que é invisibilizado/negado por um modelo padrão de construção social – masculino, heteronormativo, racista, elitista, colonizador – e as sensações são da ordem do feminino – negligenciado e menosprezado pelo patriarcado.

O professor e pesquisador mexicano Pablo Fernandéz Christlieb faz uma análise social à partir da velocidade da bicicleta e afirma que “o poder não anda a pé”. Com esta afirmação surge uma questão: quem historicamente ocupa os espaços de poder? E o que significa andar a pé? Para a primeira pergunta a resposta é óbvia e já foi apresentada no parágrafo anterior. Para a segunda pergunta reflete-se o seguinte: andar a pé é algo que se faz lentamente e está intimamente ligado à ordem do sensível, principalmente porque implica um movimento ativo do corpo, assim como pedalar. E por que os corpos lentos são os mais negligenciados? Por que as sensações são tão menosprezadas? Uma das hipóteses é justamente evitar uma articulação coletiva porque as trocas de afetos positivos aproxima e une as pessoas, algo que põe em risco o domínio e controle do poder vigente.

O projeto de pesquisa “Bicicleta para uma cidade sensível” é um trabalho de investigação que tem interesse em saber sobre as sensações que podem emergir neste trajeto e suas possíveis errâncias cotidianas. Através de imagens e narrativas de cidades pedaladas. Quantas cidades há nas profundidades e superfícies da mesma cidade? Para isso parto da experiência do corpo.

El cuerpo es político. Sobre todo el cuerpo lento, que circula lentamente por la calle y convierte la lógica hegemónica de la prisa. La calle es un espacio de disputa y poder. Es un lugar viril y masculino, así como la ciudad. Ocupar los espacios urbanos y la calle con su cuerpo (El cuerpo femenino. El cuerpo negro. El cuerpo marginal. El cuerpo árbol. El cuerpo planta.) de forma lenta es un acto revolucionario, de protesta y resistencia.

Todos los días hacemos una revolución con nuestros cuerpos andando en bici por las ciudades, a través de sus movimientos corporales y sus percepciones. Andar en bici es también un acto político, no sólo una alternativa o medio de transporte, pues nos transforma en un cuerpo activo en el mundo.

La velocidad de la bicicleta nos enseña otros modos de ver, escuchar, tantear, sentir el mundo y relacionarse con él y las personas. Amplía las sensaciones y abre la posibilidad de otros encuentros afectivos entre los cuerpos y la naturaleza urbana olvidada. Andar en bici es también un acto sensible, de la expansión de los sentidos y los afectos.

A partir de estas lecturas desaceleradas del mundo diseñamos un otro modo de vivir la ciudad, inventamos otros paisajes, otros diálogos urbanos. Y principalmente se abren otros modos de operar y comprender el mundo, de aprender y vivir, que pueden contaminar o polinizar a otras personas y cambiar sus verdades. Unir-las.

Los rastros políticos de esta lentitud crean un cuerpo poeta, que hace arte por su simple movimiento andando en bici. Que ve a la ciudad como una galería de arte, donde existen múltiples formas de probarla. La bicicleta nos invita a poner el cuerpo en movimiento, a sentir las sensaciones del mundo, a crear con las menudencias urbanas, a intervenir en los ambientes y confrontarlos.

El proyecto “Bicicleta para una ciudad sensible” piensa en la bici a partir de una perspectiva ética, estética y política, y considera que la velocidad de la bicicleta y la lentitud de los cuerpos pedaleantes son puntos cruciales para que pensemos en otros modos de existencia en la contemporaneidad.

Yo traigo rastros y pistas de un tráfico lento por donde yo pasé. Imágenes que hablan por sí  mismas, que son textos y ayudan a expresar la sensibilidad que es andar en bici. Yo he percibido que otras ciudades han emergido a partir de este movimiento pedaleante y reflexivo, ciudades invectivas y sensibles. Una colección de sensaciones materializadas que nos ayuda a pensar la creación de una ciudad sensible.

 

Texto: Sheila Hempkemeyer – Pesquisadora e Mestra em Educação pela UFSC, graduada em Psicologia. Bike Anja, associada da UCB e membro da Associação Blumenauense Pŕo-Ciclovia.

Este texto foi composto para o Edital 01/2019 “Você no FM8” promovido pela UCB – União de Ciclistas do Brasil e financiado pelo Itaú como resultado da participação do/a autor/a no 8º Fórum Mundial da Bicicleta (Quito/Equador – 25 e 28/04/2019).

 

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