Bici é Cultura

biciculturaCultura não diz respeito apenas às manifestações artísticas ou ao conhecimento erudito. Cultura é o que nos faz humanos, consistindo aí nossas diferenças com os demais seres da natureza, incluindo o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes, os valores e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos por qualquer um de nós através do convívio social. A cultura não é a mesma para todos os povos, nem durante toda a história, menos ainda para todos os indivíduos.

Economia é cultura, relações de gênero são cultura – mobilidade é cultura. Outro aspecto fundamental da cultura é a inter-relação de seus elementos, processos e sistemas: a economia é o que é devido às características da religião, das formas de governo e da técnica – e etc. – que compõem, com ela, o mesmo “caldo” da cultura; e cada um desses “ingredientes” influencia, permite ou força os demais a serem como são.

Isto dito, podemos compreender que a forma como nos movemos é um amálgama das influências geradas pelos demais componentes da cultura. A cultura ocidental, então, através das regras do mercado, dos valores hierárquicos, do desenvolvimento tecnológico e da crença na supremacia humana sobre todas as coisas levou ao domínio do automóvel privado sobre as demais formas de deslocamento no espaço social.

A cultura do automóvel é preponderante, mas não elimina as demais formas de mobilidade simplesmente porque é impossível fazê-lo. Mesmo que todas as famílias possuíssem renda para ter seu carro, não haveria gente para fabricá-los, matéria prima para compô-los, sistema viário para acolhê-los ou energia para movimentá-los, tampouco a atmosfera, os mananciais ou os ouvidos suportariam todas as suas emissões.

Por ser impossível “socializar” o automóvel, ele deve ser compreendido como uma utopia; e atendendo à recomendação de que devemos perseguir apenas projetos exequíveis, é preciso que outras formas culturais sejam investigadas.

E é esta compreensão que parece ser a inspiração principal do Bicicultura – Encontro Brasileiro de Cicloativismo e de Mobilidade por Bicicleta, que teve sua segunda edição em dezembro de 2010, em Sorocaba/SP. Por iniciativa da União de Ciclistas do Brasil, entidade que congrega as mais importantes organizações da sociedade civil que promovem o uso da bicicleta como meio de transporte, o evento contou com a co-organização da Prefeitura de Sorocaba e do Instituto Pedala Brasil e com o apoio de diversas empresas e entidades, reunindo 150 participantes inscritos oriundos da iniciativa privada, de universidades, de órgãos públicos e de ONGs.

Durante três dias foram discutidos temas ligados aos pilares da cultura: política, tecnologia, lazer, legislação, educação, trabalho, arte, economia e esporte. Os participantes ouviram, opinaram, dialogaram, pedalaram, teceram relações e se confraternizaram em torno desse veículo de transformação cultural que é a bicicleta.

As pessoas que lá estiveram pareciam querer conhecer outras pessoas que também não estão convencidas de que agora precisemos de tanta infraestrutura, recursos, logística e poluição para cumprirmos funções seculares: trabalhar, estudar, comprar, visitar amigos… Porque é mais simples, eficaz, saudável, democrático, limpo, ético, bonito, barato, divertido e lógico – é mais humano – ir aos lugares junto com outras pessoas, de ônibus ou de bicicleta, do que se isolar do mundo em uma lata privada e, com isso, obstruí-lo.

Existem experiências, técnicas e materiais abundantes e justificativas suficientes para que a bicicleta possa ser, ao invés de malquista, adotada e incentivada pelos gestores públicos e pelos cidadãos, coisas tais que se pode encontrar no Bicicultura. A humanidade produz, usando sua matemática, sua química e seu direito, excelentes bicicletas, vias ciclísticas seguras e legislação adequada para a inclusão ciclística. Já a psicologia, a medicina e a sociologia atestam os benefícios que o uso social regular da bicicleta provoca nas mentes, nos corpos e nos povos.

Para a inserção efetiva da bicicleta no sistema de mobilidade urbana, os agentes nela interessados devem atuar em todas as dimensões e setores da cultura, pois a bicicleta é um produto e um produtor cultural – para a humanidade, em todos os sentidos, a vida é bicicultura.

André Geraldo Soares é Coordenador de Comunicação da ViaCiclo.

Artigo originalmente publicado na Revista Bicicleta – Ano 1, nº 4 – Mar/2011 – Pag. 18-19.

 

 

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